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sexta-feira, 11 de maio de 2012


O seu cheiro veio tão sincero!
Sua fala cheia de cuidado, não. 
Uai? 
Aí eu lembro, todinha e tão bem do teu conforto...
Diferente desse um pretensioso, precavido:
Tudo bem com você,
Esperando não.
Quanta competência, quanta qualificação,
E eu aqui, coitada, sem sequer designação, a tonta perdida.
Mas e o cheiro, uai? 
Aquela caminha fria, aquela manhã de jenela vazia...
Num carinho você me compreendia. Ou era bem que fingia?
O que caralhos foi que enfalsetou nosso tão pequeno romance-canção?
Que eu tanto queria quanto cria oceânico, genuíno...
Pra lá de ciume, de estar aqui, beijar, falar, ou não.
Mas agora ficou assim, né? Pendurado no portão que ninguém sabe de nada.
Foi o tanto faz? Foi o tanto que fez? De verdade ou de mentirinha?
Desinterese, orgulho ou pavor?
Minguar até ia, estragar ainda o que já foi? Vai tomar no seu cú.

Um abraço pra nossa rima!

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Despedida vagabunda

É a última vez que venho, carinho. Eu sei do meu costume, da minha manha, é mesmo coisa de criança. E a impossibilidade do meu desejo vai me despentear.

Vou pro meu canto, mais longe que aquele lá do balcão, onde nem você, nem ninguém me veja e eu possa me admirar do mundo qual ele é. Sua rocha, seu remanso, sua manhã luzinha.

Ah! Não seja, meu bem, nada de que me mate o remorso por deixar. Noite desesperança já vem mansinho, acalanto escuro - sem viola, cantiga ou sussurro - quieto, bem quietinho.

Ou fui eu que ensurdeci nesse meu oco cavado e sem fundo.

terça-feira, 6 de julho de 2010

só

capacidade de reconhecer brilho e novidade no outro sem desejá-lo, me embebedar sozinha, sozinha. nem arrogante nem humilde. não sou tão radiante em mistério que ninguém tenha meu tamanho, nem tão pequena que não consiga alcansá-lo. como na tempestade tudo se confunde, e inevitavelmente se encontra.

domingo, 27 de junho de 2010

manifesto (parte 2)

"Nós não vivemos de cinema, em qualquer sentido, simplesmente vivemos, a arte é nossa precipitação natural, e nossa referência é o mundo. Assim, que fique claro: nós não buscamos a novidade, porque sabemos que ela é uma ordem. Por isso cagamos pro seu mercado, não queremos selo em prateleira alguma. Cinema não é trabalho, não serve a ninguém, nem a nós que o fazemos, ele se basta. Um bom filme não tem fim nem começo, não dura dez minutos, meia, duas ou três horas. Um bom filme não ocupa tempo algum, ocupa vidas.

Você já viu todos os filmes do mundo? Esse é o seu objetivo? Problema seu. Nós amamos o olhar espontaneo, pureza não existe, queremos um olhar desperto de criança, que viu pouco e viu muito. Um bom exercício para nós seria vendar-se por meses para, em data marcada, desvendar-se e receber uma câmera nas mãos. Pronto, agora faça o seu filme. Esse é o nosso momento, o da criação e da fabricação. Não julgue. Não somos acadêmicos ou tecnocratas, roteiristas, diretores ou fotógrafos; histórias, imagens, sons e máquinas são extensões da nossa natureza e queremos brincar de fazer mundo, por que o mundo é incidência de luz."

Manifesto

Se eu fosse dar ponta pé a uma escola de cinema qualquer, em comunhão com amigos e amores, sugeriria que começassemos com algo do tipo:

"Não queremos que filmes transformem as pessoas de maneira manipuladora, como se pudéssemos mostrá-las quem realmente são ou deveriam ser, não somos psicanalistas arrogantes. O cineasta é demiurgo do seu próprio mundo, espontaneo, refém contente de sua natureza, não na manipulação sádica da razão ou sensação dos que o contemplam.

Podemos ser artistas arrogantes, acreditamos tão profundamente na transformação pela arte, porque é natural, que o pensar sobre ela, em qualquer etapa do seu curso, fere-a. Faz da arte um tolo artifício de poder e opressão, de grande valor de comércio, inclusive, como um balaço, um jornal ou panfleto qualquer.

Nós os chamamos para nos ver porque amamos com força e inteireza, a transformação se dá nas mãos de quem é atraido e escolhe se entregar. Mas não vendemos arte, nós parimos, nos identificamos e depois abandonamos. Somos espíritos livres. Vivemos em matilha, não em rebalho ou família."

Mémoire ⎮ Memória

"Je rêve. C'est l'été, on marche tous ensemble et tu dis elle est belle, non? Je te demande qui. Tu dis Paris, je dis je ne sais pas, quand on s'est connus elle était tellement gris que je pensais que je marchais dans les rues de mon propre coeur, on partageait quelque chose, mais aujourd'hui non, elle est trop jaune, elle a trouvée une nouvelle amante. Et c'était quand ça? J'avais dix ans."

"Sonho. É verão, a gente caminha junto e você me diz ela é linda, não? Eu te pergunto quem. Você me diz Paris eu digo não sei, quando nos conhecemos ela era tão cinza que eu pensei que andava pelas as ruas do meu próprio peito, nós dividiamos alguma coisa, mas hoje não, ela tá muito amarela, encontrou uma nova amante. E quando foi isso? Eu tinha dez anos."

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Calem-se!

Sem saco pra lamentações. Crentes, descrentes, são todos um bando de gente enfadonha e lamuriosa. Se Deus é ópio, aliviando as dores da perda, se o Cristo traz a possibilidade do perdão, a ciência, assumamos, por igual anestesia, prolonga, justificando todos os males. Mas será que não cansam dessa verborragia auto-explicativa?

Mas que bla bla bla empoeirado do caralho. Ninguém se abandona, um depende do outro e ficam esses dragões grasnando e se dilacerando sobre as nossas cabeças, sem cair! E eu me pergunto quando, quando EU vou abandonar esses descabelados e simplesmente parar de me irritar com a infindável chatice do mundo.

Ainda me arrepio, me debato, me esguelo, não entendo o que é tão difícil assim de aceitar nessa Terra. Por Deus ou pelo Acaso, TUDO morre, acaba e nasce outro dentro, em cima, embaixo, do lado... Silêncio, porra! Que vontade de calar as bocas dos homens.

domingo, 13 de junho de 2010

Ninguém

Por fora frio, e basta um tiquinho de ternura o rosto aquece, a mão também quentinha amulece. Coração pulandinho, corpo espera descansar descansandinho, sorri assim sem alguém, inté sem carinho e quer muito, quer muito e tanto mais amar sem ser niguém, ninguém mesmo, um ninguémzinhu.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Sem mais

Não sei se a ternura me abandonou ou se fui eu que a deixei. Sei que ela visita, passa na esquina da minha casa, carícia insuportável. Eu lhe escapo discreta. Sempre nesse meu flagra entardecentemente frustrada. Vergonha.

Insisto, me perverto, fico. Te encaro, doçura. Um dia meu peito te encontra por aí, mais longe: mundo que eu discunheço, um mundo que me discunhece.

Pra alguém talvez pareça crueldade, em mim um samba canção.

Mas eu não aplaudo nada.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Brega












Teima e vaga a taquicardia desses dias de aflição.
Arrasta e descabela un tonto y jodido corazón.

Solito y desordenado tremendo suas agruras
Cai num buraco que chama estrangeiridão.

Hablando sin respuesta, imagina
Sua volúpia de desparates e maltratação.
Erra, apela, brega em toda a sua discrição.

Pero cariño y candura eso todo se lo olvidó.
Se soube um dia ouvir doçuras foi o mundo que o deserdou.

Por isso, meu bem, se eu te arranho todo
É porque desconheço outras marcas
Que durem sem ser amor.

domingo, 18 de outubro de 2009

Desejo

Sonhar a admiração confessa de alguém que, por afeto, calor no peito, mire meus olhos sem pretensões, com toda a graça e paixão dos que simplesmente não se sabem explicar. Num sem contar de tempo, o nosso delicioso e singelíssimo encanto. O mais é não despertar.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

cirurgia em praça pública

como eu caí? que voltar é penoso e nem a preguiça de antes é a preguiça de hoje. organizar um mundo alheio pra cagar o mundo em mim. aspiro o rubor dos voluptuosos, o tesão febril antropofágico, e no entanto, esse lugar nojento onde eu caí é feito gelatina que prega, me encharca e mancha de auzuis sutis. me traga, me carrega, embala e emudece num rugir surdo constante, constante, e tanto oco como minguante, vai me calando, calando. acorda, vagabunda! sai dessa merda, faz tuas trouxas. vive como quer e dorme, dorme o quanto pode!

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Ponta cabeça

Queria ir-me embora. Uma licença universal para partir. Eu nunca existi. Sei disso desde muito criança e me tomava em soluços de vazio, sem pretensão de durar, sem reticências, uma exclamação.

Queria ir-me embora. Uma licença universal para partir. Solta, abraço a minha contingência e quem se lembrou, de repente esqueceria.

Desenlaçar de mãos para quem se agarrava. Soltar de flores para que caiam, mudas, no regaço. Ter a alma nua, flanando, nadando e rindo e dançando e sendo tudo sem ser nada.

Hoje eu canto pros espíritos livres.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Nathan e Julia

Imagina ser alguém mais livre que ele próprio. E no entanto, o que o encanta, acima de tudo, é ver nela uma prisão desejável. Provocando palpitações, medo e uma coceira no peito. A observa quase que obsessivamente durante todo o primeiro ano.

Pouco antes do fim das aulas, num dia úmido, ele muito cansado e atormentado pela imagem daquela mulher, caminha até uma pequena praça e se senta tomando chuva.

Ela, decidida a organizar uma antologia de título Ausência, lia Borges na mesma tarde chuvosa. Já sem saber se cigarro, se chá ou se café, deixou o livro às cobertas e saiu sem trancar a casa.

E foi quando viu Nathanael encharcado no banco da praça. Lembrava um urso tristíssimo e pensou que com ele aceitaria viver triste para sempre.

sábado, 11 de outubro de 2008

C'est toi en moi

"Maintenant je sens que le monde est jaune, jeune, chaud et fleuri. C’est sûr que je suis l’étranger, le vent, le veuf et le gris. Parfois, c’est le contraire qui m’etreint et c’est bien. Mais quand rien ne change, quand tout devient monochromatique, ça peut être mon enfer, ou, pourquoi pas, mon paradis. En variant la clarité stupide et l’obscurité confortable.”

terça-feira, 15 de julho de 2008

Emquinzeminutos

Era uma noite. Escura e sem vento. Estavam os três corações palpitando à beira duma estrada. Deserto. A luz tosca dos postes tremia. O mais velho olhou pra cima e piscou muito.

Um rugido lento e arrastado reclamou nos ouvidos que atentavam. Era a betoneira que passeava solitária e bestial. Chegando perto, alcance dos olhinhos arregalados, uma portinha de escape lhe escapou e soltou rastro de brita desavisado asfalto afora. O do meio olhou para baixo e só viu o pó que subia das pedrinhas.

De repente eles ouviram passos. Saído do negrume, um senhorzinho se aventurava terra batida afora. O mais novo olhou pra trás, viu joelhos e sandálias gastas.

Todos sentiram o cheiro de colônia baratinha. Booa! Respondiam rouquinhos. Porque era uma noite. Escura e sem vento. Estavam os quatro corações palpitando à beira duma estrada. Deserto.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Um cuspe

Eu divido um coração. Regozijo uma poética de máquinas. As mesmas que racharão os muros da última vila. E ainda que tímidos, meu cigarro, as mortes que eu escolhi, os meus passos são mais sonoros.

Aceito fúria e ferragens. Túmulo, oco da arte? Fui parida entre elas, entre elas cresci. Em mim abrigo e extase encerram esses diabos que se trombam ao redor dos que se escondem.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Insônia

"4 AM.
Pela fresta assistiu as ruas cravejadas de faróis. Sentiu-se arisca, violenta. Num instante, cada bolinha de luz fugira das janelas e chovera estouros. Como espirrasse por ela, o céu se encheu. Porque ele também há muito anoitecia só."

terça-feira, 22 de abril de 2008

Llorona

sí, mi amor,
la ausencia.

quero
no oco dessa viola
bem alí dentro
dormir e ensurdecer.
hermocita y llorona
porque soluça e nina
tristissima sus penas.

e depois
con el perfume de flor
desfalecer num sueño mui silencioso.

sábado, 12 de abril de 2008

diálogo revoltadinho

tudo é caô. tudo farsa. mentiras homéricas, mentiras platonicas...

o amor é a maior e mais hedionda delas.

mas a putaria foi a primeira. descabaçou a verdade.

¿ou será o contrário?