segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Garoa

"Garoa não era suficiente. Queria encharcar-se. Os cabelos escorrendo, a roupa grudando, água dentro das botas; o assombro súbito de um raio. Queria precisar sair correndo. Dos olhos despejar a tormenta. Tudo o que tinha era uma cidade indiferente, uma garoa rala, um sentimento mesquinho."

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Máscaras

precipitações"É. Ela já tinha feito e desfeito de tudo. Acordou decidida a mascarar os ecos do seu mundo oco. Armou um baile de máscaras dentro do peito, como a casa estivesse cheia de convidados que ela cumprimentava quando quisesse. E cozinhou, cantou alto, riu-se à toa. Eclipsou dois terços de seu ânimo e enfrentou as galopantes bobagens da confidente enquanto juntas limparam a casa toda. Jantou lendo o jornal e acalmou-se escovando os dentes.

Fechando a porta do quarto, durante sua cerimoniosa preparação do bom sono é que ela sentiu. Retumbou escancarando buracos a hedionda solidão em que deveras vivia. É. Ela já tinha feito e desfeito de tudo.

Impotente. Não dormia. Lhe custaria a noite imensa desfazendo o mármore que a protegia das frustrações. Queria, no revolver de suas viceras, andar pela garoa inteira, gritar, perder-se. Mas, amedrontada esgueirou-se para a segurança das cobertas. Inerte mirou o teto e observou seu corpo aquecer vagaroso. E todas as lágrimas represadas escaparam pelos mesmos caminhos gratuitamente. Sem grandes caretas ou soluços. Impotente."