terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Uno más

(...)Dormir, según se sabe, es el más secreto de nuestros actos. Le dedicamos una tercera parte de la vida y no lo comprendemos. Para algunos no es otra cosa que un eclipse de la vigília; para otros, un estado más complejo, que abarca a un tiempo el ayer, el ahora y el mañana; para otros, una interrumpida serie de sueños (...) No nos maravillemos demasiado de ese presente que contamos por días y por noches y por los centenares de las hojas de muchos calendarios y por ansiedades y hechos; es el que atravesamos cada mañana antes de recordarmos y cada noche antes del sueño(...)

La señora major
El informe de Brodie
J. L. Borges

Y muchas gracias a mi más nuevo profe, Tomatito, por el préstamo.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Liberta-te

The Unending gift

J.L. Borges

"Un pintor nos prometió un cuadro. Ahora, en New England, se que ha muerto. Sentí, como otras veces, la tristeza y la sorpresa de comprender que somos como un sueño. Pensé en el hombre y en el cuadro perdidos.

(Solo los dioses pueden prometer, porque son inmortales)

Pensé en un lugar prefijado que la tela no ocupará. Pensé después: si estuviera ahí, con el tiempo sería esa cosa más, una cosa, una de las vanidades o hábitos de mi casa; ahora es ilimitada, incesante, capaz de cualquier forma y cualquier color y no atada a ninguno. Existe de algún modo. Vivirá y crecerá como una música, y estará conmigo hasta el fin. Gracias, Jorge Larco.

(También los hombres pueden prometer, porque en la promesa hay algo inmortal)."

Así me han prometido más de un conrazón y, por eso, sigo libre.


domingo, 18 de outubro de 2009

Desejo

Sonhar a admiração confessa de alguém que, por afeto, calor no peito, mire meus olhos sem pretensões, com toda a graça e paixão dos que simplesmente não se sabem explicar. Num sem contar de tempo, o nosso delicioso e singelíssimo encanto. O mais é não despertar.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

cirurgia em praça pública

como eu caí? que voltar é penoso e nem a preguiça de antes é a preguiça de hoje. organizar um mundo alheio pra cagar o mundo em mim. aspiro o rubor dos voluptuosos, o tesão febril antropofágico, e no entanto, esse lugar nojento onde eu caí é feito gelatina que prega, me encharca e mancha de auzuis sutis. me traga, me carrega, embala e emudece num rugir surdo constante, constante, e tanto oco como minguante, vai me calando, calando. acorda, vagabunda! sai dessa merda, faz tuas trouxas. vive como quer e dorme, dorme o quanto pode!

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Sobre os ciganos Dohm



Quando comecei a ouvir a cigana Sarani Barrios falar do seu povo, persegui um caminho translúcido de momentos em que essa tradição tangenciou a minha história. Um avô húngaro bem distante, um conto, um filme, toda a sua música e imagem que nada tinham a ver com essa outra que nos vendem.

A verdade é que esse povo apátrida, com seus violinos, acordeons, suas cores, sua volúpia simples e irreverente, hoje invade a minha curiosidade, minha vontade e todos os meus sonhos.

Aqui, então, estão alguns dos trechos de que mais gosto do relato da Sarani.

"Tudo é tão claro e tão celebrado, que dá uma tranqüilidade para as pessoas viverem a vida sem se preocuparem com auto-afirmações, cada um sabe em que estágio da vida está. E cada momento é visto como uma festa, não existe melhor ou pior, existe um momento diferente do outro. (...)

Em romani, existe uma palavra que significa ao mesmo tempo dom e destino. Isso explica tudo: são a mesma coisa. O dom é aquilo que fazemos com facilidade. Se você não sabe com que finalidade está no mundo, uma indicação é: o que você faz que lhe é fácil? O que você faz fácil é o seu talento e, portanto, é o seu destino.

Se formos espertos, perceberemos logo nosso dom e faremos esse caminho em linha reta. Se não prestarmos atenção, ficaremos dando voltas e deixaremos coisas a resolver em outra vida. Há religiões que identificam isso como karma.

Por que fazer coisas difíceis se o caminho da facilidade é o mais agradável? Uma das coisas do mundo de fora que nós ciganos não entendemos é: por que as pessoas dificultam tanto a vida? Se as suas habilidades e tudo aquilo que você faz sem esforço e com alegria constituem o seu destino, quanto mais você pratica sua alegria no dia a dia, mais perto você está de cumprir a sua missão, e quanto mais rápido você cumpre a sua missão, mais tempo vai ter para fazer outras coisas. (...)

Para os ciganos, é muito mais interessante ser plural do que especialista. Quando a gente percebe que está se tornando muito especialista em alguma coisa, sente que está fechando as janelas e então vai fazer uma coisa oposta ou tenta mudar de área, para desenvolver as próprias capacidades e o autoconhecimento. O que mais eu sei fazer bem? Será que eu só sei fazer isso? É muito triste a gente achar que só tem um talento. Às vezes a gente se sente assim e a matriarca começa a fazer perguntas “qual foi a última coisa que você fez e que achou legal? quem você conhece que faz alguma coisa que você gostaria de fazer? como seria o seu dia se você não fosse quem é? onde você estaria agora se pudesse num clique aparecer em qualquer lugar? Se você fosse criança, se fosse velho, se fosse rico, se fosse pobre, se morasse na Bélgica, se você...”

Essa é uma prática que começa com as crianças, nas rodas. Por que é assim que a gente vai identificar os talentos. Às vezes a matriarca anda pelo acampamento e faz perguntas às crianças, do tipo “onde você gostaria de estar agora?”. E a espontaneidade da resposta vai mostrando tendências.




A gente treina isso e não se permite perder a espontaneidade quando é adulto. Existe um jogo entre os adultos, no acampamento. Quando duas pessoas se cruzam, caminhando, uma lança uma pergunta à outra: “o filme que você mais gostou, 3 segundos”; “um livro que você quer ler”; “uma pessoa que você quer conhecer”; e assim por diante. (...)

Procuramos identificar na criança os talentos naturais, para que ela não sofra para conquistar a sua missão. Se a vida da criança está difícil é porque ela – ou a gente, como educador – não está conseguindo identificar o que ela faz de modo fácil. Nossa perspectiva de educação é completamente oposta a forçar uma criança a aprender algo por mera obrigação. Se a criança está pintando e fazendo isso com prazer, a gente não a tira disso para que vá aprender matemática, não faz sentido pra nós.

Há mais de cinco mil anos nosso povo vem acumulando um conhecimento que começou com a observação do que a gente é. Os antigos viram que alguns indicativos do nosso corpo batiam com algumas características da personalidade, e começaram a estudar esse fato.

Em um trabalho há alguns anos, na Alemanha, fiz estágio num hospital, fiquei meses lá, e consegui a permissão de ver as mãos das crianças que nasciam. Esse hospital atendia a elite da cidade ‘X’ em que eu estava, mas tinha também todo um trabalho de atender crianças que nasciam de mães drogadas, e muitas mães que não tinham condições de ter filhos vinham para Alemanha, porque a Alemanha proporcionava esse atendimento. E as crianças que foram mais negadas demoravam muito tempo para abrir a mão.

Pois bem, o vínculo entre mãe e filho só acontece quando a criança consegue tocar a mãe de mãos abertas. Ela reconhece a confiança, a primeira pessoa para quem ela abre a mão é a mãe. Isso foi a coisa que mais me chamou a atenção e tem a ver com algo que nós ciganos falamos: que o que mais marca a vida de uma pessoa é o amor. Um amor não correspondido ou correspondido, uma crise, perda ou grande felicidade amorosa marcam mais uma mão do que a morte de um filho. Isso para mim é uma coisa impressionante. E a mão de quem lida bem com o amor é uma mão plana, aberta.

Todo o nosso aprendizado foca muito mais isso do que as linhas. Vemos se os dedos são alongados ou largos, se a temperatura é quente ou fria, como é a cor, se a mão é grande ou pequena, como são as marcas e os montes e assim por diante. Eu também observo muito a postura de mãos... Por exemplo, pessoas muito desconfiadas e pessoas que têm muitos segredos relaxam com as mãos semifechadas. Mão fechada é agressão; quando você se defende, é justamente o oposto. Enfim, as mãos falam uma linguagem e dentro dessa linguagem a gente começa a entender a amplitude de cada ser. (...)

Um machucado na mão sempre é algum acontecimento, alguma mudança, geralmente é a pessoa dando um olé no destino, mudando o caminho. Um grande amor faz muito isso. Outro dia eu cruzei com um amigo meu - eu fui ao casamento dele, mas saí cedo porque tinha um outro compromisso – e ele disse que na hora do brinde tinha machucado a mão. E ficou uma cicatriz, que é uma cicatriz da realização do amor da vida dele. (...)

Para nós o tarô conta uma evolução, uma história. No acampamento, as crianças aprendem o tarô desde muito pequenas. Cada um dos arcanos maiores é apresentado de uma forma individual, em sequência, e a gente tem que viver aquela carta. As cartas primeiras são as cartas da infância, situações que acontecem na infância, e a gente só passa uma carta quando viveu alguma situação que nos faz entender o que é aquilo. (...)

Dentro do acampamento, as pessoas de alma velha, como eu, são as mais procuradas quando as ciganas querem saber do jogo, pois quanto mais velha a sua alma, mais assertivo o seu tarô. Por que? Porque eu vivi 400 anos, então deu para passar por todas as situações. É mais ou menos essa a percepção, tudo está ligado ao quanto você viveu. As pessoas mais sofridas e as que tiveram grandes acontecimentos na vida estão numa hierarquia mais alta, então quando acontece uma grande tragédia na vida de uma cigana, os outros falam “vamos jogar com ela, porque agora seu tarô deve estar bom”. A lógica é a seguinte: aquele sofrimento faz com que aumente o grau de compreensão que ela tem de algo que me toca."

Fonte: http://www.clubedotaro.com.br/site/h22_3_ciganos_Dohm.asp

domingo, 31 de maio de 2009

Falando em fim...

“O apocalipse é agora! Os americanos sabem disso, que a única esperança são os discos voadores. Como uma pessoa que está morrendo. É uma larva que está morrendo para gerar uma borboleta. Não devemos impedir a larva de morrer, devemos ajudá-la a morrer para ajudar a borboleta a nascer. Precisamos dançar com a morte. Este mundo está morrendo, mas, muito bem. Resultaremos numa grande, uma enorme borboleta. Você e eu seremos os primeiros movimentos nas asas da borboleta por estarmos falando disso”.

Alejandro Jodorowsky

-Eu espero do cinema o que a maioria dos norte-americanos esperam das drogas psicodélicas-

Fonte: http://www.rizoma.net/interna.php?id=192&secao=camera

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Comunicado 4 - O Fim do Mundo

Mais precisamete porque se fez necessário numa época sensacional de gripe econômica, gripe ambiental, gripe política, suina, enfim. Na espera pelo grandissíssimo espirro final do progresso.

"A AAO declara-se oficialmente entediada com o Fim do Mundo. A versão canônica tem sido usada desde 1945 para nos manter acovardados diante do medo da Inevitável Destruição Mútua e em chorosa servidão aos nossos políticos super-heróis ( os únicos capazes de lidar com a fatal Criptonita Verde)...

Qual a importância de termos descoberto uma forma de destruir a vida na Terra? Quase nenhuma. Nós imaginamos isso como uma forma de fuga da contemplação de nossas próprias mortes individuais. Criamos um emblema para servir como imagem-espelho de uma imortalidade descartada. Como ditadores dementes, desfalecemos ao pensar em levar tudo conosco para o fundo do Abismo.

A versão não oficial do Apocalipse envolve uma nostalgia lasciva pelo Fim e por um Éden pós-Holocausto onde os sobreviventes (ou os 144 mil eleitos das Revelações) podem se entregar indolentemente às orgias de histeria dualista, aos intermináveis confrontos finais com um demônio sedutor...

(...)

Qualquer um que pode ler a história com os dois hemisférios do cérebro sabe que um mundo termina a todo instante - as ondas do tempo lavam tudo e deixam apenas as memórias de um passado fechado e petrificado - memória imperfeita, ela mesma moribunda e outonal. E a todo instante também é gerado um mundo novo - apesar dos protestos dos filósofos e dos cientistas cujos corpos se paralisaram - uma atualidade na qual todas as impossibilidades se renovam, em que arrependimentos e premonições dissipam-se em nada num único gesto presencial, psicomântrico e hologramático.

O passado "normativo'' ou a futura morte do universo significam tão pouco para nós quanto o PIB do ano passado ou a degeneração do Estado. Todos os passados Ideais, todos os futuros que ainda não passaram, simplesmente obstruem a nossa consciência da vívida presença total.

Certas seitas acreditam, que o mundo (ou "um'' mundo) já chegou ao fim. Para as Testemunhas de Jeová, aconteceu em 1914 (isso mesmo, senhores, estamos vivendo o Livro das Revelações agora). Para certos ocultistas orientais, aconteceu durante a grande Conjunção dos Planetas em 1962. Joaquim de Fiore proclamou a Terceira Era, a do Espírito Santo, que substituiu a do Pai e do Filho. Hassan II de Alamut proclamou a Grande Ressurreição, a imanência do eschaton, o paraíso na Terra. O tempo profano terminou em algum ponto da Idade Média. Desde então, vivemos em tempos angelicais - só que a maioria de nós não sabe disso.

Ou, partimos de um ponto de vista monista ainda mais radical: o Tempo nunca começou. O Caos nunca morreu. O Império nunca foi fundado. Não somos e nunca fomos escravos do passado ou reféns do futuro.

Sugerimos que o Fim do Mundo seja declarado um fait acompli; a data exata não importa. Os ranters, em 1650, sabiam que o Milênio se inicia agora em cada alma que desperta para si mesma, para o seu próprio centro e divindade. "Regozije-se, companheiro'', era o cumprimento que usavam. "Tudo é nosso!''

Eu não quero participar de qualquer outro Fim do Mundo. Um garoto sorri para mim na rua. Um corvo negro pousa numa árvore de magnólias rosadas, grasnando enquanto o orgônio se acumula e é liberado numa fração de segundo sobre a cidade... o verão começa. Eu posso ser seu amante... mas cuspo em cima do seu Milênio."

Hakim Bey - CAOS - Terrorismo Poetico e Outros Crimes Exemplares


E o próximo que me vier com teoria Maia, toma na face.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Ponta cabeça

Queria ir-me embora. Uma licença universal para partir. Eu nunca existi. Sei disso desde muito criança e me tomava em soluços de vazio, sem pretensão de durar, sem reticências, uma exclamação.

Queria ir-me embora. Uma licença universal para partir. Solta, abraço a minha contingência e quem se lembrou, de repente esqueceria.

Desenlaçar de mãos para quem se agarrava. Soltar de flores para que caiam, mudas, no regaço. Ter a alma nua, flanando, nadando e rindo e dançando e sendo tudo sem ser nada.

Hoje eu canto pros espíritos livres.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Nathan e Julia

Imagina ser alguém mais livre que ele próprio. E no entanto, o que o encanta, acima de tudo, é ver nela uma prisão desejável. Provocando palpitações, medo e uma coceira no peito. A observa quase que obsessivamente durante todo o primeiro ano.

Pouco antes do fim das aulas, num dia úmido, ele muito cansado e atormentado pela imagem daquela mulher, caminha até uma pequena praça e se senta tomando chuva.

Ela, decidida a organizar uma antologia de título Ausência, lia Borges na mesma tarde chuvosa. Já sem saber se cigarro, se chá ou se café, deixou o livro às cobertas e saiu sem trancar a casa.

E foi quando viu Nathanael encharcado no banco da praça. Lembrava um urso tristíssimo e pensou que com ele aceitaria viver triste para sempre.