segunda-feira, 26 de novembro de 2007

El cementerio

"Fumaça.

-O cemitério?

-Sim.

-Te agrada?

-Por que a pergunta?

-Sorria. - asco - As flores ou o rococó dantesco?

-O caminho. Rachaduras, plantinhas inesperadas, as coisas esquecidas. Muita sujeira. Quando monotono, quis fotografar seu contraste com a cidade. Mas foi um fracasso. - traga - não há contraste."

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Garoa

"Garoa não era suficiente. Queria encharcar-se. Os cabelos escorrendo, a roupa grudando, água dentro das botas; o assombro súbito de um raio. Queria precisar sair correndo. Dos olhos despejar a tormenta. Tudo o que tinha era uma cidade indiferente, uma garoa rala, um sentimento mesquinho."

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Máscaras

precipitações"É. Ela já tinha feito e desfeito de tudo. Acordou decidida a mascarar os ecos do seu mundo oco. Armou um baile de máscaras dentro do peito, como a casa estivesse cheia de convidados que ela cumprimentava quando quisesse. E cozinhou, cantou alto, riu-se à toa. Eclipsou dois terços de seu ânimo e enfrentou as galopantes bobagens da confidente enquanto juntas limparam a casa toda. Jantou lendo o jornal e acalmou-se escovando os dentes.

Fechando a porta do quarto, durante sua cerimoniosa preparação do bom sono é que ela sentiu. Retumbou escancarando buracos a hedionda solidão em que deveras vivia. É. Ela já tinha feito e desfeito de tudo.

Impotente. Não dormia. Lhe custaria a noite imensa desfazendo o mármore que a protegia das frustrações. Queria, no revolver de suas viceras, andar pela garoa inteira, gritar, perder-se. Mas, amedrontada esgueirou-se para a segurança das cobertas. Inerte mirou o teto e observou seu corpo aquecer vagaroso. E todas as lágrimas represadas escaparam pelos mesmos caminhos gratuitamente. Sem grandes caretas ou soluços. Impotente."

domingo, 12 de agosto de 2007

Velar

3:00h AM

-Oi.
-Passo em dez minutos.

Ela sentou na cama. Ele acendeu uma vela. Miles Davis em um só abraço.

sábado, 21 de abril de 2007

Bocejo

"É engraçado. Tem dias em que ela acorda e não quer ler nada. Não quer nada a mais do mundo. Quer a cada hora menos. Escreve, dança sem música. Expurga. Come pouco, toma banho gelado, veste branco e não sai de casa. Também evita atender ao telefone. Até poder, enfim, sentir um sono macio... E dar-se toda. Lançar-se no negrume do cosmo.

E acorda livre de tanta coisa que sorri e espreguiça até doer de vazio."

sábado, 14 de abril de 2007

Parindo


É, nasceu. São trechos, são começos, são espirros, são bobagem... Lá foi o primeiro...

"Parou no café. Tortinhas. E sempre um Vinicius, pudera Jobim. Entre nozes e framboesa, decidiu pela cor. Púrpura. E suco de poupa de abacaxi com hortelã. Verde claro e framboesa dá vontade de pintar.

Acendeu um cigarro por classe. Leu. Sem arredar os olhos do poéta, mordeu pedaço de torta e esqueceu na mão. - ...De longe com o tempo... A minha amada última. - Fresco na mão. Acorda. Um largo rio de calda escapou, descia pelo seu braço e até pingava. Vermelhinho, quase vinho, lambuzou tudo. Lambeu-se tranquilamente. Os dedos e os beiços.

Queria que o mundo testemunhasse toda sua natureza silvestre. Encheu-se de quereres e depois...? Frustrou-se. Pegou novamente o livro (manchou de calda a pontinha da página). Já não esqueceria. Para uma Menina com uma Flor, tinta cor de vinho. Muito doce e cítrica."