Mostrando postagens com marcador Hakim Bey. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Hakim Bey. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Crianças Selvagens

"O insondável rastro de luz da lua cheia – meados de maio, meia-noite em algum Estado americano que começa com “I”, tão bidimensional que mal se pode dizer que possui uma geografia – o luar é tão urgente e tangível que é preciso fechar as cortinas para se poder pensar em palavras.


Nem pense em escrever para as Crianças Selvagens. Elas pensam em imagens – para elas a prosa é um código ainda não inteiramente digerido e sedimentado, assim como, para nós, ela nunca será totalmente confiável.

Você pode escrever sobre elas, para que outros, que tenham perdido o cordão de prata, possam nos compreender. Ou escrever para elas, fazendo da HISTÓRIA e do EMBLEMA um processo de sedução de suas próprias memórias paleolíticas, uma bárbara tentação para a liberdade (o caos na compreensão do próprio CAOS).


Para essa espécie do outro mundo, ou “terceiro sexo”, les enfants sauvages, ilusão e Imaginação ainda são indissociáveis. JOGO licencioso: de uma só vez e ao mesmo tempo a fonte de nossa Arte e de todo o mais precioso erotismo da raça.


Abraçar a desordem como fonte de estilo e como armazém de volúpia, um fundamento de nossa civilização alienígena e oculta, nossa estética conspiratória, nossa espionagem lunática – essa é a ação (reconheçamos) de um certo tipo de artista ou de uma criança de 10 ou 13 anos.


As crianças, denunciadas por seus próprios sentidos purificados, pela brilhante feitiçaria de uma prazer belo, espelham algo de fatal e obsceno na própria natureza da realidade: anarquistas ontológicos naturais, anjos do caos – seus gestos e cheiros emanam para seu entorno uma selva de presença, uma floresta de presságios repleta de cobras, armas ninja, tartarugas, xamanismo futurístico, confusão incrível, urina, fantasmas, luz do sol, ejaculações, ninhos e ovos de pássaros – agressão cheia de alegria contra os crescentes gemidos daquelas Regiões Inferiores incapazes de englobar tanto epifanias destruidoras quanto a criação , como farsa frágil, mas afiadas o bastante para contar o luar.


No entanto, os habitantes dessas insignificantes províncias inferiores acreditam que realmente controlam os destinos das Crianças Selvagens – e aqui embaixo, tais crenças viciadas moldam, de fato, a maior parte da substância da casualidade.


Os únicos que realmente desejam compartilhar o destino travesso dos fugitivos selvagens ou crianças guerrilheiras (em vez de tentar controlá-lo), os únicos, artistas, anarquistas, pervertidos, heréticos, um bando à parte (distantes um do outro e do mundo), ou capazes de se encontrar apenas como as crianças selvagens se encontram, trocando olhares secretos à mesa de jantar enquanto os adultos tagarelam por detrás de suas máscaras.


Jovens demais para helicópteros de guerra – fracassados na escola, dançarinos de break, poetas púberes de vilarejos à beira da estrada – um milhão de centelhas caindo em cascata dos 'rojões de Rimbaud e Mogli – frágeis terroristas cujas bombas espalhafatosas são amor polimorfo e preciosos fragmentos compactados de cultura popular – franco-atiradores punks sonhando em furar as orelhas, ciclistas animistas deslizando no crepúsculo cor de estanho pelas ruas com flores acidentais nos bairros mais miseráveis – mergulhadores ciganos nus fora de temporada, ladrões sorridentes, de olhar enviesado, de totens poderosos, troco pequeno e navalhas de pantera – estão em todos os lugares, nós os vemos – publicamos esta oferta para trocar a corrupção do nosso próprio lux et gaudium por sua perfeita e gentil imundície.


Compreenda: nossa realização , nossa libertação depende da deles – não porque imitamos a Família, estes “avaros do amor” que mantêm reféns para um futuro banal, ou Estado, que nos ensina a afundar num horizonte de eventos de enfadonha “utilidade” – não – mas porque nós e eles, os selvagens, somos o espelho um do outro, unidos e limitados por aquele cordão de prata que define as fronteiras entre a sensualidade, a transgressão e a revelação .


Nós temos os mesmos inimigos e nossos meios para a fuga triunfal também são os mesmos: um jogo delirante e obsessivo, energizado pelo brilho espectral dos lobos e seus filhotes"

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Amor Louco

Tesudo!


"O AMOR LOUCO NÃO é uma social-democracia, não é um parlamentarismo a dois. As atas de suas reuniões secretas lidam com significados amplos, mas precisos demais para a prosa. Nem isso, nem aquilo – seu Livro de Emblemas treme em suas mãos.


Naturalmente, ele caga para os professores & para a polícia. Mas também despreza os liberais & os ideólogos – não é um quarto limpo & bem iluminado. Um topógrafo embusteiro projetou seus corredores & e seus parques abandonados, criou sua decoração de emboscada feita de tons pretos lustrosos & vermelhos maníacos membranosos.


Cada um de nós possui metade do mapa – como dois potentados renascentistas, definimos uma nova cultura com a nossa excomungada união de corpos, fusão de líquidos – as fronteiras imaginárias da nossa cidade-Estado se borram com o nosso suor.


O anarquismo ontológico nunca retornou de sua última viagem de pesca. Conquanto ninguém nos denuncie para o FBI, o CAOS não se importa nem um pouco com o futuro da civilização. O amor louco procria apenas por acidente – seu objetivo principal é engolir a Galáxia. Uma conspiração de transmutação.


Seu único interesse pela Família está na possibilidade de incesto (“Amplie o seu Eu”, “Toda pessoa é um Faraó”) – Ó, mais sincero dos leitores, semelhante meu, meu irmão/irmã! - & na masturbação de uma criança ele encontra, oculta (como uma caixa-surpresa japonesa com flores de papel), a imagem do esfarelamento do Estado.


As palavras pertencem àqueles que as usam apenas até alguém as roube de volta. Os surrealistas se desgraçaram ao vender o amor louco para a máquina de sombras do Abstracionismo – a única coisa que procuraram em sua inconsciência foi o poder sobre os outros, & nisso foram seguidores de Sade (que queria “liberdade” apenas para que homens brancos & adultos pudessem estripar mulheres & crianças).


O amor louco é saturado de sua própria estética, enche-se até as bordas com a trajetória de seus próprios gestos, vive pelo relógio dos anjos, não é um destino adequado para comissários ou lojistas. Seu ego evapora-se com a mutabilidade do desejo, seu espírito comunal murcha em contato com o egoísmo da obsessão.


O amor louco pede uma sexualidade incomum, da mesma forma que a feitiçaria pede uma consciência incomum. O mundo anglo-saxão pós-protestante canaliza toda sua sensualidade reprimida para a publicidade & divide-se entre multidões conflitantes: caretas histéricos versus clones promíscuos & ex-ex-solterios. O AL não quer se alistar no exército de ninguém, não toma partido na Guerra dos Sexos, entedia-se com os argumentos a favor de iguais oportunidades de trabalho (na verdade, recusa-se a trabalhar para ganhar a vida), não reclama, não explica, nunca vota & nunca paga impostos.


O AL gostaria de ver todo bastardo (“filho natural”) chagar ao fim de sua gestão & nascer – o AL vive de aparelhos antientrópicos – o AL adora ser molestado por crianças – o AL é melhor que sensimilla3 – o AL leva para onde for suas próprias palmeiras & sua própria lua. O AL admira o tropicalismo, a sabotagem, a break dance, Layla & Majnun4, o cheiro de pólvora & de esperma.

O AL é sempre ilegal, não importa se disfarçado de casamento ou de um grupo de escoteiros – sempre embriagado do vinho de suas próprias secreções ou do fumo de suas virtudes polimorfas. Não é a deterioração dos sentidos, mas sim sua apoteose – não é o resultado da liberdade, mas seu pré-requisito. Lux et voluptas.


3 - Tipo de maconha feita a partir dos brotos e das flores da cannabis e que apresenta 7,5% de THC, seu componente psicoativo (N.E)

4.Lendários amantes do mundo árabe. Ver o livro de Nizami Laila & Majnun - A Clássica História de Amor da Literatura Persa, Jorge Zahar Editor. (N.E)"


Hakim Bey - Terrorismo Poético & outros crimes exemplares - Conrad Editora



quarta-feira, 13 de maio de 2009

Comunicado 4 - O Fim do Mundo

Mais precisamete porque se fez necessário numa época sensacional de gripe econômica, gripe ambiental, gripe política, suina, enfim. Na espera pelo grandissíssimo espirro final do progresso.

"A AAO declara-se oficialmente entediada com o Fim do Mundo. A versão canônica tem sido usada desde 1945 para nos manter acovardados diante do medo da Inevitável Destruição Mútua e em chorosa servidão aos nossos políticos super-heróis ( os únicos capazes de lidar com a fatal Criptonita Verde)...

Qual a importância de termos descoberto uma forma de destruir a vida na Terra? Quase nenhuma. Nós imaginamos isso como uma forma de fuga da contemplação de nossas próprias mortes individuais. Criamos um emblema para servir como imagem-espelho de uma imortalidade descartada. Como ditadores dementes, desfalecemos ao pensar em levar tudo conosco para o fundo do Abismo.

A versão não oficial do Apocalipse envolve uma nostalgia lasciva pelo Fim e por um Éden pós-Holocausto onde os sobreviventes (ou os 144 mil eleitos das Revelações) podem se entregar indolentemente às orgias de histeria dualista, aos intermináveis confrontos finais com um demônio sedutor...

(...)

Qualquer um que pode ler a história com os dois hemisférios do cérebro sabe que um mundo termina a todo instante - as ondas do tempo lavam tudo e deixam apenas as memórias de um passado fechado e petrificado - memória imperfeita, ela mesma moribunda e outonal. E a todo instante também é gerado um mundo novo - apesar dos protestos dos filósofos e dos cientistas cujos corpos se paralisaram - uma atualidade na qual todas as impossibilidades se renovam, em que arrependimentos e premonições dissipam-se em nada num único gesto presencial, psicomântrico e hologramático.

O passado "normativo'' ou a futura morte do universo significam tão pouco para nós quanto o PIB do ano passado ou a degeneração do Estado. Todos os passados Ideais, todos os futuros que ainda não passaram, simplesmente obstruem a nossa consciência da vívida presença total.

Certas seitas acreditam, que o mundo (ou "um'' mundo) já chegou ao fim. Para as Testemunhas de Jeová, aconteceu em 1914 (isso mesmo, senhores, estamos vivendo o Livro das Revelações agora). Para certos ocultistas orientais, aconteceu durante a grande Conjunção dos Planetas em 1962. Joaquim de Fiore proclamou a Terceira Era, a do Espírito Santo, que substituiu a do Pai e do Filho. Hassan II de Alamut proclamou a Grande Ressurreição, a imanência do eschaton, o paraíso na Terra. O tempo profano terminou em algum ponto da Idade Média. Desde então, vivemos em tempos angelicais - só que a maioria de nós não sabe disso.

Ou, partimos de um ponto de vista monista ainda mais radical: o Tempo nunca começou. O Caos nunca morreu. O Império nunca foi fundado. Não somos e nunca fomos escravos do passado ou reféns do futuro.

Sugerimos que o Fim do Mundo seja declarado um fait acompli; a data exata não importa. Os ranters, em 1650, sabiam que o Milênio se inicia agora em cada alma que desperta para si mesma, para o seu próprio centro e divindade. "Regozije-se, companheiro'', era o cumprimento que usavam. "Tudo é nosso!''

Eu não quero participar de qualquer outro Fim do Mundo. Um garoto sorri para mim na rua. Um corvo negro pousa numa árvore de magnólias rosadas, grasnando enquanto o orgônio se acumula e é liberado numa fração de segundo sobre a cidade... o verão começa. Eu posso ser seu amante... mas cuspo em cima do seu Milênio."

Hakim Bey - CAOS - Terrorismo Poetico e Outros Crimes Exemplares


E o próximo que me vier com teoria Maia, toma na face.