"A AAO declara-se oficialmente entediada com o Fim do Mundo. A versão canônica tem sido usada desde 1945 para nos manter acovardados diante do medo da Inevitável Destruição Mútua e em chorosa servidão aos nossos políticos super-heróis ( os únicos capazes de lidar com a fatal Criptonita Verde)...
Qual a importância de termos descoberto uma forma de destruir a vida na Terra? Quase nenhuma. Nós imaginamos isso como uma forma de fuga da contemplação de nossas próprias mortes individuais. Criamos um emblema para servir como imagem-espelho de uma imortalidade descartada. Como ditadores dementes, desfalecemos ao pensar em levar tudo conosco para o fundo do Abismo.
A versão não oficial do Apocalipse envolve uma nostalgia lasciva pelo Fim e por um Éden pós-Holocausto onde os sobreviventes (ou os 144 mil eleitos das Revelações) podem se entregar indolentemente às orgias de histeria dualista, aos intermináveis confrontos finais com um demônio sedutor...
(...)
Qualquer um que pode ler a história com os dois hemisférios do cérebro sabe que um mundo termina a todo instante - as ondas do tempo lavam tudo e deixam apenas as memórias de um passado fechado e petrificado - memória imperfeita, ela mesma moribunda e outonal. E a todo instante também é gerado um mundo novo - apesar dos protestos dos filósofos e dos cientistas cujos corpos se paralisaram - uma atualidade na qual todas as impossibilidades se renovam, em que arrependimentos e premonições dissipam-se em nada num único gesto presencial, psicomântrico e hologramático.
O passado "normativo'' ou a futura morte do universo significam tão pouco para nós quanto o PIB do ano passado ou a degeneração do Estado. Todos os passados Ideais, todos os futuros que ainda não passaram, simplesmente obstruem a nossa consciência da vívida presença total.
Certas seitas acreditam, que o mundo (ou "um'' mundo) já chegou ao fim. Para as Testemunhas de Jeová, aconteceu em 1914 (isso mesmo, senhores, estamos vivendo o Livro das Revelações agora). Para certos ocultistas orientais, aconteceu durante a grande Conjunção dos Planetas em 1962. Joaquim de Fiore proclamou a Terceira Era, a do Espírito Santo, que substituiu a do Pai e do Filho. Hassan II de Alamut proclamou a Grande Ressurreição, a imanência do eschaton, o paraíso na Terra. O tempo profano terminou em algum ponto da Idade Média. Desde então, vivemos em tempos angelicais - só que a maioria de nós não sabe disso.
Ou, partimos de um ponto de vista monista ainda mais radical: o Tempo nunca começou. O Caos nunca morreu. O Império nunca foi fundado. Não somos e nunca fomos escravos do passado ou reféns do futuro.
Sugerimos que o Fim do Mundo seja declarado um fait acompli; a data exata não importa. Os ranters, em 1650, sabiam que o Milênio se inicia agora em cada alma que desperta para si mesma, para o seu próprio centro e divindade. "Regozije-se, companheiro'', era o cumprimento que usavam. "Tudo é nosso!''
Eu não quero participar de qualquer outro Fim do Mundo. Um garoto sorri para mim na rua. Um corvo negro pousa numa árvore de magnólias rosadas, grasnando enquanto o orgônio se acumula e é liberado numa fração de segundo sobre a cidade... o verão começa. Eu posso ser seu amante... mas cuspo em cima do seu Milênio."
Hakim Bey - CAOS - Terrorismo Poetico e Outros Crimes Exemplares
E o próximo que me vier com teoria Maia, toma na face.
hummm... :-s
ResponderExcluireu acredito na profecia maia...
pelo menos eles sabiam contar o tempo!
agora a gente só fica correndo de um lado pro outro atrás do que? do tempo?
unf...
mas, e se o tempo nunca nem tiver começado? hueuhue, quer dizer, o tempo é mesmo uma abstração e de fato só limita. acho que o grande lance seria: livre-se dele.
ResponderExcluire livrar-se do tempo não seria o mesmo que dizer livre-se da terra? livre-se da terceira dimensão e da quarta inclusive?
ResponderExcluirqual seria a maior abstração nesse caso?
mas devo confessar que o lance me comevou. a que ponto chegamos, ao profeciar o fim dos tempos, ao decretá-lo, ao esperá-lo como a última esperança... mas acreditar no fim do tempo, ou fim dos tempos, tanto faz, é produto de decretar o fim da política. O fim das possibilidades do homem como agente e, responsável, no seu próprio destino e da sociedade. O homem apolítico, é apático e por mais instruído é alienado. Ele fez a escolha de se apartar das decisões e agora, sentado à janela, espera àquilo que já decretou: o fim do mundo dos homens. Se, por um lado, critica essa sociedade do espetáculo, o homem apolítico reitera-a, ao colocar-se na primeira fila para assistir passivo ao espetáculo do fim, da degeneração.
sardades, maninha, queria um café acompanhado de nana e tempo e tempo e tempo...
não quero o fim do tempo, quero eu poder controlá-lo, manipulá-lo. Medi-lo pelo meu passo e não pelo preço do aço.
Bé,
ResponderExcluir"e livrar-se do tempo não seria o mesmo que dizer livre-se da terra? livre-se da terceira dimensão e da quarta inclusive?"
sim, livre-se do tempo, livre-se do espaço. livre-se de tudo o que nos limita, afinal, essas noções são construções humanas - culturais, inclusive.
agora, eu pergunto pra vc: o que é o homem?
será que o mundo não é todo humano, já? aí, acabar com as separações tempo/espaço, natureza/cultura, hemisferio direito/esquerdo (para citar o Bey aí de cima), ego/superego/id, significa retornar à consciencia de que, se tudo é humano, tudo é possivel e multiplo. também tudo está integrado, em perfeita harmonia, e só o momento presente existe. não existe a morte ou a vida, não existe o eu e o outro...
não sei se ficou claro.. pra falar a verdade, eu não sabia como escrever isso... hehehe
bjo, qridas, Bé e Nanne!
lari
o homem apolítico, minha flor, realmente só é apático se você ainda entende um mundo rachado, dividido. esquera direita etc. tu precisa ler mais Bey, se não eu vou reescrever o CAOS aqui.
ResponderExcluirmas como diz a lari que o outro lá diz, bem claramente, é urgente colocar uma bomba no pensamento ocidental.
beijo beijo
era isso o que eu queria dizer: quando a agência atribuída ao homem consiste na sua capacidade de manipulação (portanto, na cisão entre Natureza e Cultura) de tudo o que ele considera como sendo externo a si mesmo (homem sujeito/cultura/humano, mundo objeto/natureza/coisa), aquele que abdica de sua agência sem romper com esta cisão vira um ser apático (mais um objeto do mundo), "apolítico".
ResponderExcluirno entanto, se a cisão for rompida, o homem continua sendo um ser agente, porém de outra forma - ele se reintegra no mundo, e percebe que o mundo todo é também agente. Só há sujeitos, e, sendo assim, não há manipulação.
(como a nana disse: "homem apolítico, minha flor, realmente só é apático se você ainda entende um mundo rachado, dividido."; as palavras chics foram pra deixar o argumento mais geral)
O "outra lá" é o Eduardo Viveiros de Castro, e o que ele propõe é justamente isso que eu acabei de dizer. Não é por acaso que ele sofreu bastante influência do Hakim Bey :)
Aliás, pra quem tiver paciência, no meu blog (Epifenomenologia) tem um texto que eu traduzi onde ele fala justamente isso (o titulo da postagem é Canibalizando Kant).
bjos, qridas!
queridas,
ResponderExcluiro que eu entendo é que existe a necessidade de deixar claro que algumas abstrações humanas, são apenas abstrações humanas. sim. no entanto, não me parece que elas devam ser "jogadas fora"... a história, a política, o tempo, a arte, o espaço. mais me parece que devíamos conservar, transformar, comer e digerir todas essas abstrações. e a minha impressão é que mesmo que tenha partes podres o gosto final é delicioso.
quanto a política, para mim ela ainda é a ferramenta do homem enquanto organizado em sociedade para dialogar. jogá-la fora cria em mim a imagem de um mundo ainda mais fragmentado e individualista, sem conversa, diálogo e identificações com o outro.
e se o termo política anda maculado, o apolítico igualmente. não sinto vontade de festejá-lo.
beijos
ps: agora depois de um café, já com pontos mais convergentes... a internet é bacana, mas nada como um cafezinho!
ps2: não consegui postar como eu! q q acontece?
O problema é quando a gente entra em contato com culturas, civilizações, ou histórias, experiências outras... Então a gente começa a comer e digerir o que quer que tenha vindo desta "alteridade", entrando numa alter(-)ação (in)constante...
ResponderExcluirA gente tem dentro de si forças obscuras que estão esperando um momento qualquer pra se manifestarem. Afinal, o EU não existe sozinho, e apenas com um outro. o EU é um outro. E é por isso que a gente nunca vai estar isolado no mundo, nem que queiramos. O isolamento é a morte, e a morte não (necessariamente) existe.
Se é a esse processo que vc chama de história, bé, eu concordo (em parte) contigo. Se é ao contato com o outro, a ida constante a ele que vc chama de política, concordo (em parte) também. O espaço e o tempo, não como categorias congeladas que possibilitam a experiencia, mas como um fluxo de experiências onde o Eu se dissolveu, concordo (em parte) de novo.
Por que em parte? Porque se é a isso que vc se refere, não creio que isto corra risco nenhum de acabar. E caso aconteça, não haveria problema também. Porque diz a lenda que essas coisas só vão acabar quando não precisarmos mais delas...
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ResponderExcluirMas, nesse caso, o que o Hakim Bey tá falando é justamente disso: que este momento do "não precisarmos mais dessas coisas" é todo e qualquer momento. Nós podemos nos dissolver agora, pra sempre.
ResponderExcluirMas essa dissolução diz respeito justamente àquilo que vc tá elogiando: à entrega ao mundo, e ao não-mundo também. O fim do individualismo como meta. Porque o tempo é um fluxo, mas nós, em vez de mergulharmos nele, ficamos parados, deixando que ele passe por nós. Somos pontos fixos nesse fluxo. Quando entramos nele, não mais o percebemos, é como se tivesse acabado.
E este é o caos.
Eu acho.
Bjão!