quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Amor Louco

Tesudo!


"O AMOR LOUCO NÃO é uma social-democracia, não é um parlamentarismo a dois. As atas de suas reuniões secretas lidam com significados amplos, mas precisos demais para a prosa. Nem isso, nem aquilo – seu Livro de Emblemas treme em suas mãos.


Naturalmente, ele caga para os professores & para a polícia. Mas também despreza os liberais & os ideólogos – não é um quarto limpo & bem iluminado. Um topógrafo embusteiro projetou seus corredores & e seus parques abandonados, criou sua decoração de emboscada feita de tons pretos lustrosos & vermelhos maníacos membranosos.


Cada um de nós possui metade do mapa – como dois potentados renascentistas, definimos uma nova cultura com a nossa excomungada união de corpos, fusão de líquidos – as fronteiras imaginárias da nossa cidade-Estado se borram com o nosso suor.


O anarquismo ontológico nunca retornou de sua última viagem de pesca. Conquanto ninguém nos denuncie para o FBI, o CAOS não se importa nem um pouco com o futuro da civilização. O amor louco procria apenas por acidente – seu objetivo principal é engolir a Galáxia. Uma conspiração de transmutação.


Seu único interesse pela Família está na possibilidade de incesto (“Amplie o seu Eu”, “Toda pessoa é um Faraó”) – Ó, mais sincero dos leitores, semelhante meu, meu irmão/irmã! - & na masturbação de uma criança ele encontra, oculta (como uma caixa-surpresa japonesa com flores de papel), a imagem do esfarelamento do Estado.


As palavras pertencem àqueles que as usam apenas até alguém as roube de volta. Os surrealistas se desgraçaram ao vender o amor louco para a máquina de sombras do Abstracionismo – a única coisa que procuraram em sua inconsciência foi o poder sobre os outros, & nisso foram seguidores de Sade (que queria “liberdade” apenas para que homens brancos & adultos pudessem estripar mulheres & crianças).


O amor louco é saturado de sua própria estética, enche-se até as bordas com a trajetória de seus próprios gestos, vive pelo relógio dos anjos, não é um destino adequado para comissários ou lojistas. Seu ego evapora-se com a mutabilidade do desejo, seu espírito comunal murcha em contato com o egoísmo da obsessão.


O amor louco pede uma sexualidade incomum, da mesma forma que a feitiçaria pede uma consciência incomum. O mundo anglo-saxão pós-protestante canaliza toda sua sensualidade reprimida para a publicidade & divide-se entre multidões conflitantes: caretas histéricos versus clones promíscuos & ex-ex-solterios. O AL não quer se alistar no exército de ninguém, não toma partido na Guerra dos Sexos, entedia-se com os argumentos a favor de iguais oportunidades de trabalho (na verdade, recusa-se a trabalhar para ganhar a vida), não reclama, não explica, nunca vota & nunca paga impostos.


O AL gostaria de ver todo bastardo (“filho natural”) chagar ao fim de sua gestão & nascer – o AL vive de aparelhos antientrópicos – o AL adora ser molestado por crianças – o AL é melhor que sensimilla3 – o AL leva para onde for suas próprias palmeiras & sua própria lua. O AL admira o tropicalismo, a sabotagem, a break dance, Layla & Majnun4, o cheiro de pólvora & de esperma.

O AL é sempre ilegal, não importa se disfarçado de casamento ou de um grupo de escoteiros – sempre embriagado do vinho de suas próprias secreções ou do fumo de suas virtudes polimorfas. Não é a deterioração dos sentidos, mas sim sua apoteose – não é o resultado da liberdade, mas seu pré-requisito. Lux et voluptas.


3 - Tipo de maconha feita a partir dos brotos e das flores da cannabis e que apresenta 7,5% de THC, seu componente psicoativo (N.E)

4.Lendários amantes do mundo árabe. Ver o livro de Nizami Laila & Majnun - A Clássica História de Amor da Literatura Persa, Jorge Zahar Editor. (N.E)"


Hakim Bey - Terrorismo Poético & outros crimes exemplares - Conrad Editora



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