quinta-feira, 25 de junho de 2009

Sobre os ciganos Dohm



Quando comecei a ouvir a cigana Sarani Barrios falar do seu povo, persegui um caminho translúcido de momentos em que essa tradição tangenciou a minha história. Um avô húngaro bem distante, um conto, um filme, toda a sua música e imagem que nada tinham a ver com essa outra que nos vendem.

A verdade é que esse povo apátrida, com seus violinos, acordeons, suas cores, sua volúpia simples e irreverente, hoje invade a minha curiosidade, minha vontade e todos os meus sonhos.

Aqui, então, estão alguns dos trechos de que mais gosto do relato da Sarani.

"Tudo é tão claro e tão celebrado, que dá uma tranqüilidade para as pessoas viverem a vida sem se preocuparem com auto-afirmações, cada um sabe em que estágio da vida está. E cada momento é visto como uma festa, não existe melhor ou pior, existe um momento diferente do outro. (...)

Em romani, existe uma palavra que significa ao mesmo tempo dom e destino. Isso explica tudo: são a mesma coisa. O dom é aquilo que fazemos com facilidade. Se você não sabe com que finalidade está no mundo, uma indicação é: o que você faz que lhe é fácil? O que você faz fácil é o seu talento e, portanto, é o seu destino.

Se formos espertos, perceberemos logo nosso dom e faremos esse caminho em linha reta. Se não prestarmos atenção, ficaremos dando voltas e deixaremos coisas a resolver em outra vida. Há religiões que identificam isso como karma.

Por que fazer coisas difíceis se o caminho da facilidade é o mais agradável? Uma das coisas do mundo de fora que nós ciganos não entendemos é: por que as pessoas dificultam tanto a vida? Se as suas habilidades e tudo aquilo que você faz sem esforço e com alegria constituem o seu destino, quanto mais você pratica sua alegria no dia a dia, mais perto você está de cumprir a sua missão, e quanto mais rápido você cumpre a sua missão, mais tempo vai ter para fazer outras coisas. (...)

Para os ciganos, é muito mais interessante ser plural do que especialista. Quando a gente percebe que está se tornando muito especialista em alguma coisa, sente que está fechando as janelas e então vai fazer uma coisa oposta ou tenta mudar de área, para desenvolver as próprias capacidades e o autoconhecimento. O que mais eu sei fazer bem? Será que eu só sei fazer isso? É muito triste a gente achar que só tem um talento. Às vezes a gente se sente assim e a matriarca começa a fazer perguntas “qual foi a última coisa que você fez e que achou legal? quem você conhece que faz alguma coisa que você gostaria de fazer? como seria o seu dia se você não fosse quem é? onde você estaria agora se pudesse num clique aparecer em qualquer lugar? Se você fosse criança, se fosse velho, se fosse rico, se fosse pobre, se morasse na Bélgica, se você...”

Essa é uma prática que começa com as crianças, nas rodas. Por que é assim que a gente vai identificar os talentos. Às vezes a matriarca anda pelo acampamento e faz perguntas às crianças, do tipo “onde você gostaria de estar agora?”. E a espontaneidade da resposta vai mostrando tendências.




A gente treina isso e não se permite perder a espontaneidade quando é adulto. Existe um jogo entre os adultos, no acampamento. Quando duas pessoas se cruzam, caminhando, uma lança uma pergunta à outra: “o filme que você mais gostou, 3 segundos”; “um livro que você quer ler”; “uma pessoa que você quer conhecer”; e assim por diante. (...)

Procuramos identificar na criança os talentos naturais, para que ela não sofra para conquistar a sua missão. Se a vida da criança está difícil é porque ela – ou a gente, como educador – não está conseguindo identificar o que ela faz de modo fácil. Nossa perspectiva de educação é completamente oposta a forçar uma criança a aprender algo por mera obrigação. Se a criança está pintando e fazendo isso com prazer, a gente não a tira disso para que vá aprender matemática, não faz sentido pra nós.

Há mais de cinco mil anos nosso povo vem acumulando um conhecimento que começou com a observação do que a gente é. Os antigos viram que alguns indicativos do nosso corpo batiam com algumas características da personalidade, e começaram a estudar esse fato.

Em um trabalho há alguns anos, na Alemanha, fiz estágio num hospital, fiquei meses lá, e consegui a permissão de ver as mãos das crianças que nasciam. Esse hospital atendia a elite da cidade ‘X’ em que eu estava, mas tinha também todo um trabalho de atender crianças que nasciam de mães drogadas, e muitas mães que não tinham condições de ter filhos vinham para Alemanha, porque a Alemanha proporcionava esse atendimento. E as crianças que foram mais negadas demoravam muito tempo para abrir a mão.

Pois bem, o vínculo entre mãe e filho só acontece quando a criança consegue tocar a mãe de mãos abertas. Ela reconhece a confiança, a primeira pessoa para quem ela abre a mão é a mãe. Isso foi a coisa que mais me chamou a atenção e tem a ver com algo que nós ciganos falamos: que o que mais marca a vida de uma pessoa é o amor. Um amor não correspondido ou correspondido, uma crise, perda ou grande felicidade amorosa marcam mais uma mão do que a morte de um filho. Isso para mim é uma coisa impressionante. E a mão de quem lida bem com o amor é uma mão plana, aberta.

Todo o nosso aprendizado foca muito mais isso do que as linhas. Vemos se os dedos são alongados ou largos, se a temperatura é quente ou fria, como é a cor, se a mão é grande ou pequena, como são as marcas e os montes e assim por diante. Eu também observo muito a postura de mãos... Por exemplo, pessoas muito desconfiadas e pessoas que têm muitos segredos relaxam com as mãos semifechadas. Mão fechada é agressão; quando você se defende, é justamente o oposto. Enfim, as mãos falam uma linguagem e dentro dessa linguagem a gente começa a entender a amplitude de cada ser. (...)

Um machucado na mão sempre é algum acontecimento, alguma mudança, geralmente é a pessoa dando um olé no destino, mudando o caminho. Um grande amor faz muito isso. Outro dia eu cruzei com um amigo meu - eu fui ao casamento dele, mas saí cedo porque tinha um outro compromisso – e ele disse que na hora do brinde tinha machucado a mão. E ficou uma cicatriz, que é uma cicatriz da realização do amor da vida dele. (...)

Para nós o tarô conta uma evolução, uma história. No acampamento, as crianças aprendem o tarô desde muito pequenas. Cada um dos arcanos maiores é apresentado de uma forma individual, em sequência, e a gente tem que viver aquela carta. As cartas primeiras são as cartas da infância, situações que acontecem na infância, e a gente só passa uma carta quando viveu alguma situação que nos faz entender o que é aquilo. (...)

Dentro do acampamento, as pessoas de alma velha, como eu, são as mais procuradas quando as ciganas querem saber do jogo, pois quanto mais velha a sua alma, mais assertivo o seu tarô. Por que? Porque eu vivi 400 anos, então deu para passar por todas as situações. É mais ou menos essa a percepção, tudo está ligado ao quanto você viveu. As pessoas mais sofridas e as que tiveram grandes acontecimentos na vida estão numa hierarquia mais alta, então quando acontece uma grande tragédia na vida de uma cigana, os outros falam “vamos jogar com ela, porque agora seu tarô deve estar bom”. A lógica é a seguinte: aquele sofrimento faz com que aumente o grau de compreensão que ela tem de algo que me toca."

Fonte: http://www.clubedotaro.com.br/site/h22_3_ciganos_Dohm.asp

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