sábado, 3 de setembro de 2011
São Francisco e o Lobo
Naquele dia São Francisco não estava muito bento. Nem muito santo.
Que também os santos têm seus momentos de gente.
Alheio e preocupado, em fuga, passou à larga pelos seus bichos.
O lobo o olhou fundo com seus olhos de lobo. As órbitas brilhando.
E feito um manso vira-latas o acompanhou silente. Com seus passos leves. De lobo.
Naquele dia o lobo era São Francisco de Assis. Em pele de gente.
Acuado. Sem uivos que o libertassem. E gemidos.
São Francisco olhou suas garras e dentes de lobo. Bem aparadas.
Reluzentes. E, penitente, se decidiu pelo isolamento. Jejum.
Não era um dia qualquer. Na sua vida. Comum.
Dia de luta. Brava. Travada. Ferrada. Consigo. No isolamento das horas. Mortas. De solidão e pesado mistério. Insondável. Da alma. Branca. Se rebelando. Indomável.
São Francisco, de joelhos, policiava sua fome. Apetite voraz.
De lobo. Fera. E fugia das ovelhas. Coelhos. Tentadores. E fugia das uvas.
Vinho. Embriaguez. Dos sentidos. Latentes. Despertando.
Do sono letárgico. De semente.
Na cova escura seu coração pulsava. Forte. Oprimido.
O sangue potente. Voluptuoso. Ardendo. Nas veias. Os olhos imensos.
Queimando. Seu fogo. E sede. Medonhos.
E São Francisco orava. Nas trevas. Lutando. Consigo.
Apagou-se a última estrela. E veio rompendo o dia. Caprichoso.
Trazendo seus matizes. Enquanto São Francisco continuava fechado.
Na oração. Sem dádiva. Para a luz. Do dia.
Até que exausto adormeceu. De solidão. E abandono. O corpo frágil sobre o solo.
Então, o lobo se aproximou de manso. Suave. Nos seus passos. Sem ferocidade. Amoroso. Terno.
Feito uma gata que zelasse do filhote o lobo se debruçou sobre ele. E com a boca de nenhuma fúria o carregou para fora. Da caverna escura. Depondo seu corpo sobre um ninho de relva. Orvalhada. De perfume. Matinal.
Caricioso o lobo lambeu as mãos do santo. Seu rosto. Cansado.
De vigilia.
E São Francisco despertou de manso. Sob os olhos atentos. Do irmão. Lobo.
Se fitaram longos. Cúmplices. Antigos. Se riram afetuosos. Lado a lado desceram a colina. Rica. À procura de um riacho.
Onde São Francisco lavou seu corpo. Ágil. A água escorrendo de sua barba. Os olhos acesos. Em diversas luzes.
Depois se sentou sobre uma pedra. E fez riscos, desenhos, no chão.
Era enorme a fome. Rugindo. Mas o coração, leve, pulsava seu ritmo.
E era doce seu canto.
Quando o lobo voltou da mata. Ofegante. Com a caça. Ainda se debatendo. E a depositou aos pés do santo.
São Francisco o olhou assustado. Querendo fugir. Da crua oferenda.
Selvagem. Violenta.
Os olhos umedeceram de pranto. O corpo oscilou. E se recompôs. Sob o olhar inocente. Do lobo.
São Francisco nada disse. Apenas curvou os ombros. E envelheceu um pouco.
Tomando nas finas e brancas mãos o animal ainda quente seu coração não mais duvidava.
Estava escrito também este momento.
De comunhão. Suprema.
Com cuidado e presteza São Francisco preparou o repasto. Simples. Humilde. Como um servo. Da vida. Da natureza.
Brilhava o sol e a brisa embalava os galhos. Bálsamo suave.
Cantava ao longe um pássaro. Seu trinado.
E peixes pulavam à borda. Flor. Da água. Do riacho.
Tomando o alimento, contrito, silencioso, São Francisco orou mais uma vez. Fitando o vale.
E seu coração estava sereno. Na oração. De profundo amor.
Solidária, a brisa espalhava pela mata a sua voz.
Serena e doce voz. De irmão. E amigo.
Ao seu lado o lobo descansava. De olhos fechados. Apreciando o vento.
De dentro do coração de ambos, do santo e do lobo, Deus abençoava,
mais uma vez, a vida.
Fátima Belo
(Prosa-poética.
Menção honrosa da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais, dezembro de 1982.)
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