terça-feira, 24 de maio de 2011

Sobre o povo afegão






"O falcão de um rei saiu voando e pousou na casa de uma velha. Ela nunca tinha visto um falcão na vida e resolveu cuidar dele. Aparou-lhe o bico adunco até torná-lo reto, podou-lhe a crista e cortou-lhe as garras. 'Pronto', disse então. 'Agora você ficou muito mais parecido com um pombo."
Masnavi, Jalaluddin Rumi

(...)

"Nessa época Peshawar abrigava uma multidão de endinheirados dignitários americanos. E geralmente os brindava com uma partida de buzkashi, o violento esporte nacional do Afeganistão, que consiste numa paródia da guerra e é, talvez, o único jogo do mundo mais perigoso para o espectador que para o participante. O buzkashi oferecia aos visitantes uma clara metáfora de tudo que havia de nobre no amor dos afegãos pela luta, sem a inconveniência da desordem e da morte.

O buzkashi que significa literalmete "arrasta-bode", é chamado de rugbi a cavalo", mas na verdade vem a ser um precursor do pólo. Em vez de bola, os jogadores disputam uma carcaça de cabrito. Nessa época Hank andava espalhando o boato de que no Afeganistão preferia-se jogar buzkashi com cabeças de russos capturados. A idéia deve ter infundido um medo kiplinguiano no coração dos recrutas soviéticos amontoados em suas bases.

Assim como estou convencida de que o pilau é o manjar dos deuses, também acredito fervorosamente que o buzkashi é o esporte de equipe mais empolgante que o homem inventou. Não há um número fixo de jogadores, nem um tamanho específico de campo. A equipe vencedora é a que se apodera da carcaça, carrega-a por toda a área e a joga de novo no meio do campo. Existem poucas regras: cada time pode fazer praticamente tudo para impedir o progresso do outro e apossar-se da carcaça. Os bravos cavalinhos, descendentes das montarias dos mongóis, são treinados para executar todo tipo de manobra e até para morder os cavalos do time adversário.

Um funcionário particularmente importante estava para chegar à cidade, e Hank passou algumas semanas ameaçando com a deportação imediata quem se atrevesse a escrever um artigo negativo sobre a visita. No grande dia organizou-se a infalível partida de buzkashi. Os convidados estrangeiros foram acomodados numa tenda a uma distância considerada segura.

Em vez de ficar na tenda com os ocidentais, instalei-me na margem do campo improvisado para observar o aquecimento. Até isso era empolgante, os cavalos fintavam e se esquivavam, os jogadores brigavam entre si. Gritos, assobios, ruídos de cascos enchiam o ar. Eu me senti exposta, correndo risco de ser pisoteada, mas esse era um perigo inebriante: o preço a pagar para ver de perto animais e homens se contorcendo.

Um jogador gentilmente me ofereceu sua montaria, e, quando me instalei no lombo da pequena égua cinzenta, meu mundo se transformou. Agora eu estava no mesmo nível dos cavaleiros. Deixara de ser mera espectadora para fazer parte do jogo.

A égua reagia a um complicado conjunto de movimentos e gritos. A um leve puxão das rédeas, ela avançava em linha reta. A um simples toque, virava para a direita ou para esquerda. Um grito, e ela se punha em disparada. Um certo pontapé, e ela imediatamente estacava. A tudo obedecia sem a mínima demora. Eu ia acertando os comandos por ensaio e erro. Era sensacional, uma força primitiva me empurrando para meus ancestrais.

Quando eu era menina, meu pai me contou - com nenhuma autoridade, exceto a poética - que as manchas escuras em meu peito do pé são feridas hereditárias, resultantes do atrito com o estribo. Nossos antepassados galoparam milhares de quilometros, cruzando desertos, montanhas e planicies, até chegar ao Afeganistão, no século VIII, com os invasores árabes. O buzkashi me parecia uma lembrança encapsulada, como minhas feridas hereditárias, como a saga de minha família. Montada na égua, eu fazia parte de algo maior, não só no espaço, mas também no tempo.

Os cavalos avançavam e recuavam, separavam-se e se uniam. Eu tentava ficar fora da confusão, mas meu animal acompanhava os outros, era seu satélite. Os movimentos dos cavalos eram rápidos demais para se detectar vontades individuais. Todos nos tornamos uma só vontade, um só corpo, um só movimento. Pensei: assim devia ser uma batalha - sem espaço para o medo, só uma investida arrebatadora, estonteante.

Imaginei esses cavaleiros juntando-se a outros, aos primeiros jogadores de buzkashi: as terríveis e inexoráveis hordas mongóis, devastando as estepes do norte como gafanhotos, a destruição pulsando-lhe nas veias. "A maior alegria é conquistar os inimigos, persegui-los, tomar-lhes as propriedades, ver suas famílias aos prantos, possuir suas filhas e suas viúvas", disse Gengis Khan. Naquele momento, estrondeando pelo campo, eu o entendi.

A cultura afegã está tão impregnada de sua herança mongol quanto a terra está encharcada de todo o sangue que os mongóis derramaram. Jalaluddin Rumi, o grande poeta afegão, nasceu num momento em que as tropas de Gengis Khan se reuniam para assolar a Ásia Central. Os bárbaros juraram exterminar todos que não pertenciam a sua raça e quase o conseguiram. Mataram 30 milhões de pessoas - em combate, em chacinas de civis, pela fome e pelas doenças que provocaram deliberadamente. Foi a pior catástrofe causada pelo homem que o mundo já viu.

O jovem Rumi e seu pai deixaram Balkh, sua cidade natal, no norte do Afeganistão, e juntaram-se à torrente de civis esfomeados que fugiam dos invasores. Instalaram-se inicialmente em Nishapur, no atual Irã. Mas os mongóis estavam em seus calcanhares. Depois de massacrar a população de Herat, no Afeganistão, puseram-se a perseguir e executar os eventuais sobreviventes. E por fim - para ter certeza de que os que escaparam à sua fúria morreriam lentamente de fome, no duro inverno - queimaram os celeiros cheios de grãos. Ao término dessa carnificina, apenas quarenta pessoas se reuniram na grande mesquita de Herat. Eram tudo que restara de 1,5 milhão de habitantes. Seis meses antes, brincava-se que não se podia esticar a perna em Herat sem chutar um poeta ou um filósofo.

O jovem Rumi e seu pai partiram para Bagdá onde souberam que sua cidade fora destruida e seus concidadãos foram trucidados. Pouco depois Nishapur, onde haviam se refugiado, caiu em poder dos bárbaros. Todas as criaturas vivas, inclusive cães e gatos foram executadas, a cidade foi arrasada e em seu lugar semeou-se cevada.

Oito séculos mais tarde, a Ásia Central ainda conserva as marcas desse holocausto. A cevada ainda cresce nas ruínas de Nishapur. A população do Afeganistão nunca se recuperou. A sistemática destruição do delicado sistema de canais de irrigação tornou estéreis vastas áreas de solo fértil. Para os que viveram essa época terrível, deve ter sido como se as luzes da civilização estivessem se apagando.

Mas Rumi, que perdera a família, a casa, a pátria, o futuro - e toda a esperança de paz ou estabilidade ao longo de sua existência, não aceitou confinar-se aos parâmetros de seu mundo destroçado. "Do ponto de vista do homem", afirma em seus Discursos, "uma coisa pode paracer boa ou má. No entanto, do ponto de vista de Deus, tudo é bom. Mostrai-me o bem que não contém nenhum mal, ou o mal que não contém nenhum bem. O bem e o mal são indivisíveis. O bem não pode existir sem o mal."

O mundo do Ocidente me dizia que estava em curso uma batalha entre o bem e o mal. O bloco soviético via as coisas da mesma forma - só invertia os papéis do bom e do mau. Contudo, ali, no lombo de uma égua de buzkashi, eu tinha uma visão resultante da semeadura e da colheita de incontáveis invasões: não existem absolutos em nosso mundo fragmentário; as divisões que criamos e nas quais acreditamos são artificiais. O próprio tempo não é uma linha reta de progresso organizado, e sim um ciclo que se repete indefinidamente - em nossas vidas e na história -, com o qual podemos aprender, se quisermos. O resto é uma massa rodopiante, uma força primordial, uma nuvem de poeira, com patas que estrondeiam e vozes que gritam, a emoção da caça, o derrubar e o construir.

As plantas que os mongóis cortaram tão brutalmente voltaram a crescer. A lembrança de sua devastação tornou-se parte do Afeganistão e nos fortaleceu, da mesma forma que nossa história empapada de sangue. Até nosso querido prato nacional, o pilau, originou-se, segundo consta, de toda essa violência, quando as tropas de Gengis Khan estenderam seus escudos para aparar a gordura que pingava dos animais capturados e mortos e a despejavam sobre o arroz - cereal que foram conhecer no Afeganistão - para então devorá-lo.

Olhei para os ocidentais em sua tenda segura e pensei: por mais que nos amem ou nos odeiem, por mais que queiram acreditar nos mitos que inventaram sobre nós, nunca hão de nos cortar o bico e a crista e as garras cruéis e transformar este falcão em pombo.

Um cavaleiro mergulhou no mar de cascos como um pescador de pérolas, e apenas seu pé, ainda firme no estribo, permaneceu visível. Ao emergir, carregava a carcaça embaixo do braço. E saiu cavalgando como o vento, com a horda em seus calcanhares. Os dignitários estrangeiros soltaram "ohs e ahs" no abrigo de sua tenda.

O cavaleiro voltou-se para escapar da horda. Os outros também se voltaram, levando poeira como um remoinho. Desestabilizados pela própria força, perderam o equilíbrio. O jogo extravasou o limite do campo e se dirigiu para a tenda: a mesma tenda que abrigava os grandes e os justos da Europa e dos Estados Unidos. Pouco antes de ela desabar - esparramando a elite política de dois continentes diante de uma massa de cascos estrepitosos -, vi a imagem congelada de rostos perplexos de americanos.

Eles imaginaram que nesse esporte, nesse país e nassa guerra existia alguma coisa como distância segura. Confiaram em sua tenda. Não conseguiam acreditar que ela não os protegera do bravo e nobre, orgulhoso e aguerrido povo afegão, que lutava contra os comunistas. Que a força que haviam desencadeado crescera e se levantara para tomar de assalto sua tenda e seus estandartes, suas cadeiras douradas e os emblemas de sua civilização e jogá-los na lama."

SHAH, Saira. Em "A filha do contador de histórias". São Paulo, Companhia das Letras, 2004, p. 128, 140 - 145.

Saira, filha de Idries Shah, filósofo e escritor sufi, foi criada na Inglaterra ouvindo as histórias tradicionais de seus antepassados afegãos. Formada jornalista, nos anos 80 finalmente entra no Afeganistão, atravessando o temido Hindu Kush (cordilheira assim batizada Assassina de Hindus) na companhia dos mujahidin. Se instala em Peshawar no Paquistão, trabalha em alguns jornais e em seguida volta à Europa. Em 2001 lança os documentários Por trás do Véu (Beneath the Veil) e Guerra Profana (Unholy War) delatando as atrocidades cometidas pelo governo do Talibã e registrando a guerra contra os EUA.

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